IFA 2026: robôs humanoides e a casa conectada real

A IFA 2026 encheu Berlim de robôs humanoides sem preço. O que de fato chega às lojas, o que esperar e quanto custa importar para o Brasil.

A IFA 2026 aconteceu de 4 a 8 de setembro de 2026, na Messe Berlin, e deixou duas impressões que não combinam entre si. A primeira: o robô humanoide virou o personagem central da feira, e nunca houve tantos em Berlim. A segunda: quase nada do que andou, dançou e deu cambalhota nos palcos tem preço, data de venda ou utilidade doméstica comprovada. O que dá para comprar veio da categoria menos fotogênica do evento: aspiradores robô, fechaduras, câmeras, lâmpadas e termostatos.

Robô humanoide com tela no peito
Imagem: Alex Knight / StockSnap (CC0)

Vale separar o que a feira mistura de propósito: protótipo (funciona no palco, não tem preço), conceito (é ideia ou maquete) e produto (tem preço e data). Esta é a régua usada aqui.

A feira em números, e o recorde de robôs

A IFA reuniu mais de 1.900 marcas de 49 países, segundo o site oficial. O TechTimes, em 3 de setembro de 2026, detalhou o porte: 190 mil metros quadrados, 27 pavilhões e cerca de 932 expositores chineses, quase metade do total. A BGR registrou expectativa de 220 mil visitantes na 102ª edição.

A IFA Next ocupou o Hall 25 com cerca de 300 expositores de 25 países e concentrou o assunto do ano: a feira listou 11 marcas de robôs humanoides, entre elas PrimeBot Robots, EngineAI, DEEP Robotics, Agibot e Unitree. Em 5 de setembro houve o “Robots on the Runway”, desfile de humanoides e quadrúpedes numa passarela, e o pavilhão 15 abrigou o futebol de robôs da RoboCup.

Duas mudanças dizem tanto quanto as presenças: a Samsung deixou o recinto principal depois de 35 anos, desde 1991, e montou operação própria no Humboldt Carré, segundo o TechTimes; e a abertura coube a uma fabricante de chips, a AMD.

O que os humanoides de fato fizeram em Berlim

A Euronews, que cobriu o evento no local, descreveu o repertório: robôs da MagicLab fantasiados de panda dando mortais para trás, o PUDU D7, da Pudu Robotics, pegando objetos e posando para fotos, e um robô da SwitchBot colocando roupa na máquina de lavar, tarefa que a reportagem chamou de notavelmente lenta.

A mesma cobertura registrou o que não aparece nos comunicados: robôs instáveis ao fim das apresentações, um que fez espacate e ficou trêmulo ao se levantar, e um cão robô que caiu. Isso não invalida o avanço técnico, mas define o estágio: exibição coreografada em ambiente controlado, não tarefa doméstica resolvida.

A organização vende o tema sem meias palavras. Leif Lindner, CEO da IFA Management GmbH, afirmou que os visitantes “podem viver o que parecia ficção científica poucos anos atrás”. David Reger, fundador e CEO da NEURA Robotics, disse no mesmo comunicado que “a robótica pode ter papel decisivo para fechar essa lacuna”.

Quanto custa um humanoide, quando existe preço

Poucos humanoides de Berlim têm preço público. A BGR listou o que é concreto:

  • Booster K1, da Booster Robotics: 95 cm e 19,5 kg, a partir de US$ 5.999, passando de US$ 10 mil nas versões mais potentes, já vendido na China, nos Estados Unidos e na Europa.
  • Zeroth W1: 68 cm e 28 kg, US$ 7.999, disponível nos Estados Unidos e na China.
  • PrimeBOT Q1: 88 cm, voltado a pesquisa e companhia doméstica, lançamento na China em setembro de 2026, sem preço.
  • EngineAI T800: 173 cm e pico de 450 N·m de torque, vendido na Ásia, sem preço.
  • Agibot A3: 173 cm e 55 kg, mão modular de precisão submilimétrica, sem preço nem data.

Repare no padrão: os que têm preço são pequenos, de 68 a 95 centímetros, e vendidos como plataformas de pesquisa e competição, não como empregados domésticos. Os grandes, de 1,73 metro, não têm preço nem canal de varejo.

O caso mais citado segue a mesma lógica. O LG CLOiD, apresentado na CES 2026 e levado a Berlim, foi descrito pela Euronews como maestro de uma “AI Orchestra” de eletrodomésticos. Steve Baek, presidente da LG Home Appliance Solution Company, diz em comunicado que ele foi “projetado para entender naturalmente os humanos a quem serve”. Não há preço nem data, o mesmo valendo para o robô bípede da Midea.

Por que os analistas seguram o entusiasmo

A leitura mais dura vem das consultorias. Em 21 de janeiro de 2026, o Gartner previu que menos de 20 empresas terão humanoides em produção para manufatura e cadeia de suprimentos até 2028, e que menos de 100 passarão da prova de conceito. Abdil Tunca, analista principal sênior do Gartner, resume: “a tecnologia continua imatura e muito longe de atender às expectativas”.

A Interact Analysis projeta a inflexão comercial apenas em 2032, com mais de 700 mil unidades por ano e US$ 15 bilhões de receita em 2035, e a China com mais de 65% dos embarques. Marco Wang, analista de pesquisa da consultoria, aponta “lacunas na capacidade de IA incorporada, escassez severa de dados e durabilidade insuficiente”. A casa aparece ali como oportunidade de prazo longo, limitada por segurança. Mesmo o cenário otimista põe o humanoide doméstico primeiro na fábrica.

A casa conectada foi onde apareceu produto de verdade

Enquanto o humanoide desfilava, a categoria sem glamour entregava. O padrão foi o de IA local, processada no aparelho ou num hub da casa, em vez de na nuvem: a Anker mostrou o MindBase, com armazenamento até 48 TB; a Ugreen, o HomeAgent, que junta Matter, automação local e gravação de câmeras; e a Shelly liberou o firmware 2.8.0, que transforma seus Wall Displays em controladores Matter.

Também houve conceito puro, e é justo chamar pelo nome: o Roomba Duo, da iRobot, sem lançamento anunciado; o estudo Cary, da Miele, que reconheceria tecidos e ajustaria a lavagem sozinho; e o Companion Living, da Hisense. Nenhum tem preço.

Matter 1.6 e o limite do padrão

O Matter chegou à versão 1.6 em 17 de junho de 2026, segundo a Connectivity Standards Alliance. As novidades relevantes são o pareamento por NFC, que configura um aparelho antes de instalar, e o Joint Fabric, que deixa vários controladores administrarem a mesma rede.

Em Berlim isso virou produto: a Heiman mostrou sensor com Matter 1.6 e pareamento NFC sem energia, a Third Reality levou botão e sensor de umidade do solo em Matter over Thread, e a Tuya demonstrou câmera Matter como módulo para fabricantes. Mas a própria Aliança adverte que o caminho da especificação até as mãos do usuário varia conforme a empresa e o produto. Traduzindo: o selo Matter não garante que todas as funções do aparelho apareçam no seu ecossistema.

O que comprar agora, o que esperar e o pedágio brasileiro

A regra prática é simples: compre função, não promessa. Entre os itens com preço europeu anunciado na feira, levantados pela revendedora alemã tink, vale considerar agora:

  • Iluminação: Govee Sky Ceiling Light (399 euros) e as fitas COB Strip Light 2 Pro (179,99 euros) e 2 (119,99 euros), a partir de 4 de setembro de 2026. Da Philips Hue, o Play HDMI Sync Box 4K a partir de 150 euros.
  • Clima: termostato tado° Wired Smart Thermostat X de 2ª geração, 119,99 euros avulso e 179,99 euros no kit inicial.
  • Acesso: fechadura SwitchBot Lock Ultra Max Vision Pro Combo por 339,99 euros.
  • Limpeza: Dreame Aqua20 Pro Ultra Roller X Complete (1.499 euros, a partir de 21 de setembro de 2026), a linha T da mesma marca (319 a 649 euros, a partir de 15 de setembro) e o iRobot Roomba Max 875 Combo (1.199 euros).
  • Jardim: cortador de grama eufy E15 Gen2 (1.399 euros), previsto para o fim de setembro de 2026.

Melhor esperar: humanoide de qualquer marca, hub de IA local de primeira geração e tudo em pré-venda ou financiamento coletivo. O Ugreen HomeAgent HA100 foi anunciado a US$ 1.799 com entrega prevista para janeiro de 2027, via crowdfunding, e o robô de piscina RockAqua P1, da Roborock, só chega em janeiro de 2027. Comprar antecipado é financiar o desenvolvimento alheio.

E aqui entra a parte brasileira, que muda a conta. Desde 12 de maio de 2026, segundo a Receita Federal, compras de até US$ 50 em sites habilitados no Remessa Conforme voltaram a ter imposto de importação de 0%. De US$ 50 a US$ 3.000, a alíquota federal é de 60%. Em qualquer faixa incide ICMS estadual de 17% a 20%, e o valor considerado inclui frete e seguro.

Na prática: sensor, botão, lâmpada e tomada inteligente, que costumam ficar abaixo de US$ 50, ficaram bem mais baratos de importar. Já uma fechadura de 339,99 euros ou um aspirador de 1.499 euros saltam de patamar com 60% mais ICMS, o que quase sempre torna a compra no varejo nacional mais racional. Some a isso a pressão citada na abertura da feira pela diretora-geral Carine Chardon, segundo a BGR: a alta dos preços de memória segue empurrando o custo dos eletrônicos para cima em 2026.

O resumo honesto da IFA 2026 é este: a robótica embarcada evoluiu rápido o bastante para virar espetáculo, e a casa conectada, devagar o bastante para virar produto. Para quem vai gastar dinheiro, a segunda notícia é a que importa.

Fontes