Pisa 2025: uso diário de IA anda junto com nota menor

A OCDE ouviu 760 mil jovens em 91 países. Quem usa IA todo dia para escrever fica 28 pontos atrás em ciências, e 48% dos brasileiros já usam toda semana.

A OCDE divulgou os resultados do Pisa 2025, e o dado que mais circulou não foi o de matemática nem o de leitura, embora os dois tenham piorado. Foi o cruzamento entre uso de inteligência artificial e desempenho: entre estudantes de 15 anos, quem recorre à IA todo dia para escrever tira nota menor do que quem quase nunca usa.

Estudantes em sala de aula
Imagem: U.S. National Archives / rawpixel (CC0)

Os números do recorte de IA

A avaliação ouviu mais de 760 mil jovens em 91 países. Na prova de ciências, a diferença aparece assim:

  • 481 pontos entre quem usa IA diariamente para redigir textos;
  • 509 pontos entre quem nunca ou quase nunca usa;
  • 28 pontos de distância, o equivalente aproximado a um ano e meio de escolaridade.

O achado mais interessante, porém, não está nos extremos. Estudantes que usam IA uma ou duas vezes por semana superam tanto os que usam todo dia quanto os que praticamente não usam. A curva não é uma reta descendente: ela sobe, atinge um ponto e cai.

Onde o Brasil aparece

O aluno brasileiro usa IA um pouco mais que a média da OCDE, e usa para tarefas ligeiramente diferentes.

  • Uso semanal ou mais frequente: 48% no Brasil, contra 46% na média da OCDE.
  • Pesquisa preliminar: 40%, contra 31%.
  • Resumo de leituras: 31%, contra 30%.
  • Rascunho de trabalhos: 27%, contra 29%.
  • Nunca ou quase nunca: 11%, contra 14%.

Esse retrato precisa ser lido junto com o desempenho, que continua distante. Em ciências, 48% dos brasileiros alcançam o nível 2, considerado o mínimo, contra 74% na média da OCDE, e apenas 1% chega aos níveis 5 e 6, contra 7%. Em matemática, 28% atingem o nível 2, contra 65%. Em leitura, 49%, contra 69%.

O quadro geral é de queda

O Pisa 2025 registrou a menor média já medida em matemática e leitura entre os países da OCDE. A proporção de estudantes com baixo desempenho simultâneo em ciências, matemática e leitura subiu de 16%, em 2022, para um em cada cinco. A IA entra nessa conversa como suspeita, não como ré confessa: o ciclo anterior já vinha em queda antes de qualquer chatbot chegar à sala de aula.

Correlação não é causa, e isso importa aqui

Vale insistir no ponto, porque a manchete convida ao atalho. O Pisa mostra que uso diário e nota baixa andam juntos. Ele não demonstra que um causou o outro. Há pelo menos duas explicações concorrentes plausíveis, e provavelmente as duas operam ao mesmo tempo.

A primeira é a hipótese do atalho: delegar a escrita significa não praticar a organização do pensamento que a escrita exige, e o efeito aparece na prova. A segunda é a hipótese da seleção reversa: o estudante que já tem dificuldade é justamente o que mais recorre à ferramenta que faz o trabalho por ele. Nesse caso a IA seria sintoma, não causa.

Andreas Schleicher, diretor de Educação e Habilidades da OCDE, sintetizou a leitura da entidade com uma analogia esportiva: ninguém entra em forma assistindo a esportes. A frase é boa como aviso e ruim como política pública, porque não diz o que fazer com os 48% de brasileiros que já usam a ferramenta toda semana.

O que dá para tirar disso

O dado do meio da curva é o mais acionável de todo o relatório. Se quem usa IA uma ou duas vezes por semana vai melhor que os dois extremos, a pergunta relevante para escola e para família deixa de ser se o aluno usa e passa a ser em que etapa ele usa. Pesquisa preliminar e verificação de entendimento são usos que aparecem associados a desempenho melhor. Substituir o rascunho é o uso que aparece associado à queda.

Para o Brasil, há um agravante de contexto: o país discute o uso de IA na educação sem marco legal de inteligência artificial em vigor. O PL 2338/2023 foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e segue na Câmara à espera de parecer, com sinalização de que a análise só avança depois das eleições de outubro. Enquanto isso, quase metade dos estudantes de 15 anos já incorporou a ferramenta à rotina.

Fontes